segunda-feira, 8 de março de 2010

Levantamento da cultura do Milho - Ano agrícola 1967/8, Taquarituba, S.P.


O produtor Jordão de Oliveira observando o perfilhamento do milho ocasionado pela alta fertilidade do solo. Taquarituba, 1968. Fotografia de autoria de J. Norival Augusti

No ano agrícola de 1967-1968 realizei um levantamento da cultura do milho usando um jipe 52, pois naquele tempo a Casa da Lavoura não contava com auxiliares técnicos, mas tão somente um escriturário e um servente-contínuo. O escriturário organizou, contabilizou e fez as análises dos dados levantados nos sítios, fazendas, bares e clubes, por mim. O escriturário não contava nem com  calculadora primitiva para fazer os cálculos.
A relação dos produtores foi retirada da relação do Incra por sorteio dentro dos extratos de áreas e os sorteados foram entrevistados em seus sítios, fazendas, bares e outros locais. 
O questionário foi elaborado em conjunto com o especialista de Milho do DATE (Departamento de Assistência Técnica Especializada) de Campinas, os engenheiros agrônomos José de Andrade e J. Arlindo Ayres Pacheco, com o objetivo de se conhecer a situação das lavouras e de seus produtores para com os dados “formular” ou montar o Plano Anual de Assistência Técnica do município baseado nos dados da lavoura.
Os dados foram tabulados e junto com  Michel Charles Hawthorne (Delegado Regional Agrícola de Avaré) e com o engenheiro agrônomo Ovídio Bastilio Tardivo (Chefe de Extensão Rural de Avaré), os planos agrícolas foram formulados baseados na realidade das culturas e de seus produtores.
Alguns agricultores não responderam a todas as perguntas. O município tinha como principal atividade agrícola a cultura de milho, complementada com a renda com da engorda de porcos (engordados com os milhos, produzidos e retidos na propriedade) e ou cultura de feijão das seca plantados em fevereiro e colhidos em abril-maio, intercalares à cultura de milho. Segue abaixo os registros da pesquisa desenvolvida naquela época.

Foi elaborado questionário e aplicado aos produtores: nos bairros do: Porto(3produtores),Barreiro(4),Estiva(2),Campos(2), Queimadão(8), Muniz(2), Palmeiras(2),Baianos(1), Ribeirão Bonito(2),Aleixo(1), Neves(3), Muniz(2), Leites(1), Pico(1), Palmeiras/Muniz(2)- Total-36 questionários.
Estes produtores foram sorteados na relação de proprietários nos diversos extratos de áreas e sorteados da relação do Incra(1965):I- extrato de 0,1 há. a 20,há., II- extrato de 20,1 a 50 há, III- extrato de área de 50,1 a 200, há , IV extrato com áreas de mais de 200,1 há. 
Abaixo algumas das perguntas do questionário e suas respostas:
 
1-Qual a solução para aumentar a produtividade?
Apareceram diversas respostas a esta primeira pergunta, sendo que foram apontados pelos 91 produtores de milho consultados e algumas são relatadas ipsis literis:

Alguns diziam que era preciso ter sementes mais fortes, outro acreditava que sua produção iria diminuir, 5 gostariam de ter milho hibrido melhor, outro adubando com esterco, outro não tinha experimentado adubo mas acreditava que com ele poderia aumentar a produção, outro se mecanizasse ou se tivesse um burro e o usasse na condução da cultura, outro se trocasse de terra, outro adquirindo experiência,outro preparando melhor a terra,A resposta mais interessante foi que se o tempo ajudasse melhoraria a produção.

Outra forma de perguntar: Como aumentar a produção por alqueire(medida usada pelo agricultor)

As respostas abreviadas ou por extenso foram: deveria experimentar diversas épocas de plantio(1)para tentar aumentar a produtividade; outro que a produção variava conforme o tempo(1); milho mais tardio tem mais tempo para "formar"o milharal e produzir mais(1); plantio mais cedo demora mais para formar";plantio em Nov.-Dezembro sai mais rápido, (1), em setembro produz mais e grana e melhor(1),Outubro e´ o mês melhor e da menos serviço,na produção (1),Setembro e Outubro tem mais tempo para formar, e em Novembro,o milho vem mais forte(1),melhorar o plantio:(12),deveria experimentar diversas épocas(1), precisa contar com o tempo (1), não adianta plantar cedo que aumenta o ciclo(1), em set. e outubro produz mais,(1) em Novembro o milharal sai mais rápido, outro dizia que setembro produzia mais, outro que setembro e outubro, tem tempo para formar a lavoura, outro que novembro,. a lavoura vem mais forte, mais tarde e requer menos serviço.


2-Vocês fazem ou não financiamento? em bancos?
As respostas foram as mais variáveis, e assim distribuídas:

Dois tinham o suficiente para"quebrar o galho", outro "tocava" só com a família, não precisando do financiamento, Três nunca procuraram crédito, outro estava fazendo inventário e não podia fazer o crédito, outros três achavam difícil, Um não tinha a área do terreno dividido com os herdeiros; dois cuidavam de pouca "roça", outro disse que a lavoura “ não correspondia" financiar, outro tinha dinheiro sobrando"e outro disse era a taxa cobrada 4 a 5 % ao mês pelos particulares, outro diz que o Banco não financia para gente “fraca”(financeiramente), outro "não tinha leitura"e assim ficava difícil, e um produtor entrevistado não tivera lavoura de milho no ultimo ano.


2a)Os bancos financiadores das lavouras foram 1(um) banco do Brasil(Avaré), quatro(4) em bancos não oficiais,(Mercantil de S.P. e Bradesco) e três(3) de particulares ou conhecidos.

3- -Você faz conservação do solo?ou planta em ou com curva de nível?

Respostas: Quinze vírgula cinqüenta e nove por cento por cento(15,59%) dos produtores nada faziam de práticas de conservação do solo no extrato I(0,1 a 20 há)-setenta e sete,noventa e dois por cento plantavam cortando as águas(77,92%), e seis virgula quarenta e nove por cento plantavam em nível(6,49%); no extrato II- (20,1 a 50,há) 4quatro nada faziam para conservar o solo, 15 plantavam cortando as águas das chuvas, e Um plantava em nível; no extrato III 2 produtores nada faziam para controlar a erosão, 7 produtores plantavam cortando as águas, e Um plantava em nível.abrangendo uma população de 77 produtores de milho.


4- Qual a qualidade da semente de milho que plantam?
Respostas: Nos extratos de I ao IV,setenta e dois ou seja 79,12% plantavam sementes de híbridos da Casa da Lavoura da Secretaria da Agricultura,(naquele tempo HMD-6999), 4(quatro) ou 4,39% plantavam híbridos da Agroceres; Ag12, 2(dois) ou 2,19% plantavam hibrido da Cargill, 2(dois)ou 2,19% plantavam milho Azteca(da S.A.), 3 ou 3,18% plantavam híbridos da Sementec e 8(oito) ou 8,79% plantavam milho de paiol de segunda geração de hibrido.

Pelo resultado constatou-se que as sementes selecionadas de híbridos,(no ano 67/8)eram 91,21% usadas pelos agricultores. A percentagem e numero maior de pequenos produtores(58,5%) no uso de sementes hibridas, foi no extrato I de produtores com áreas das propriedades de 0 a 20 há, e em segundo lugar o extrato II de 20,1 a 50,0 hectares, mostrando que os pequeno agricultores foram um dos primeiros ‘a adotar a técnica das sementes hibridas por motivação, convicção ou necessidade porque dependiam dela para manutenção da sua família.

Na oportunidade do questionário a Secretaria da Agricultura era o principal fornecedor de sementes de milho, para a lavoura paulista e as firmas particulares começavam a aparecer sendo uma das primeiras a Sementec, subsidiaria das Refinações de Milho Brazil Ltda.(grande compradora de grãos na ocasião) , a segunda a Agroceres e terceira Cargill despontavam como produtora e vendedora de sementes de milho hibrido. Estas porcentagens foram maiores que as encontradas nos estudos de extensão rural nas lavouras americanas, na década de cinqüenta, (quando foram criados os primeiros híbridos nos EEUU.) e quando se estudou a introdução de milho híbrido nas lavouras americanas.(aula de extensão rural, ESALQ,1964)

5- Como prepara a terra para o plantio do milho?

Quando da realização do questionário praticamente não existia tratores no município, e muitas terras eram recém desbravadas e ainda tinham restos de arvores ou “tocos” nas terras de aração.
Por isto encontramos diversas respostas no resultado dos questionários:

As respostas ao questionário foram:
No extrato I- (propriedades de 0,1 a 20 há):quatorze dos produtores ou 33,3%:–rolam a “palhada”(ou seja restos de cultura do milho,com rolete tracionados a animal,)do milho, picam a mesma, aram e gradeavam a terra; seis (14,2%) produtores queimavam a “palhada” e aravam/gradeavam a terra; doze( 28,5 %) aravam com tudo; cinco(11,9%) soltavam porcos e depois aravam e gradeavam, o terreno para plantarem, num total de 42 produtores. No extrato II- de 20,01 a 50,0ha.: 7- produtores “rolavam” a “palhada” com picadores e depois aravam, 2- queimavam a palhada do milho, e depois aravam com todos os restos culturais e depois gradeavam, 3-“enleiravam”, queimavam a palhada e depois aravam e gradeavam.No extrato II, de 20,01 a 50.ha.-2 rolavam,picavam e aravam/gradeavam para plantar. No extrato III:de 50,01 a 200ha- 2 rolavam,picavam, e aravam/gradeavam para o plantio, 2 queimavam e aravam/gradeavam para o plantio, 2 enleiravam, ,queimavam ,aravam e gradeavam para o plantio.No extrato IV de área maior que 200.01 ha 2 produtores rolavam, picavam e aravam/gradeavam para o plantio, Um: 1queimava e arava para o plantio, 2 reservavam para pasto a área plantada com milho, e 1um servia para renovação de pastagens, totalizando 78 os questionários aplicados ou o numero de produtores “levantados” ou “questionados.”

Pelo levantamento conclui-se que não havia mecanização tratorizada(usando tratores), mas tão somente “burro mecanização”;termo que indica o plantio usando animais para plantar e colher a lavoura.

6- Como o produtor “pode aumentar a produção de milho de sua terra ou produtividade? As respostas foram as mais variadas:
 - Um disser que era preciso ter mais crédito para corrigir a acidez.
- Dezenove disseram que adubando eles aumentariam a produção.
- Dez disseram que adubando e melhorando o plantio.
- Três produtores achavam que se tratassem bem e adubasse a lavoura.
- Um disse que fazendo curvas de nível, adubando e Deus mandando água a produção aumentaria.
- Um disse que se “estercasse” aumentaria a produção.
- Dois disseram que só Deus poderia melhorar a produção, um acreditava que poderia melhorar e se trocasse de terra.
- Um só gastaria mais para melhorar a produção se os preços do milho melhorassem.
- Um disse que se adubasse poderia aumentar, mas não tinha experimentado adubar.
- Um afirmou que melhoraria se tivesse um animal e implementos para plantar, pois plantava tudo manualmente(e com fogo).
- Um disse que lhe faltava experiência.
- Três achavam que o tempo chuvoso era a melhor maneira de aumentar a produtividade.
- Um disse que  “preparar bem a terra conforme se precisa”.
- Um disse que a produção era “capaz de diminuir”com a passagem do tempo.



7. Quando costuma vender o milho produzido?

Respostas: Eles responderam que vendiam de abril a agosto, dependendo de vários fatores e um deles era a necessidade de dinheiro: três vendiam em março-abril; oito vendiam em abril-maio; três de maio a junho; oito de maio em diante; dois após a colheita ou na colheita; outro de março a maio; um de abril a agosto; um em agosto; um de agosto a setembro; três em junho e julho; 2 em junho; um em novembro; um quando precisa de dinheiro nos meses de outubro a dezembro; e somente um comprava para o uso complementando sua produção.



8-Qual a causa da “requeima” ou amarelecimento do milho?
Respostas: Entre as respostas destacamos:Três por acides; Três por mormaço e chuva demais; Três por falta de chuvas, na época certa; chuvas e calor nas baixadas; Lavoura suja(de mato) e com sol; Dez por causa de plantio denso, com muita planta na cova; Dois disseram que não tem mais requeima após usar o milho hibrido da Casa da Lavoura; Quatro disseram ser devido ao tempo quando tem muito sol;Três disseram que terreno fraco e terra lavada aparece mais requeima; Dois devido a qualidade da terra; Outro que quando chove e tem “calorão” tem mais requeima, um Outro que falta “esterco na terra”, Dois achavam que se o tempo corresse bem produzia bem,ou se tivesse seca ou o sol muito quente dava requeima e produzia menos; Outro que seca ou sol muito quente na época do florescimento prejudicava a produção, e Finalmente outro disse que quando se “enleirava”, os restos culturais o calor delas poderia dar a requeima e prejudicar a produção.

9- A lavoura de milho é ou não compensadora?
Respostas:  As respostas foram as mais variadas. Foram vinte e seis respostas desde as favoráveis ‘a cultura até aqueles que achavam que a cultura era fácil, correspondia ao tratamento, e alguns até acredita-vam que compensaria se o preço fosse bom (alto). Outros diziam que compensava porque trabalhavam sem “camarada.”Outro achava que compensava para aqueles que trabalhavam bem. Outro dizia que “não enriquecia, mas dava para comer”; Outro compensaria se fosse trabalhar sozinho, outro achava que não podia lidar com outra cultura;,Outro que não dava prejuízo; Dois disseram “que o ramo é um teste e temos que ir treinando”, outro dava pouco lucro, mas estava acostumado,um Outro não dava prejuízo, e se tudo correr bem a lavoura é lucrativa, Dois disseram que conforme o ano a lavoura dá lucro, e Dois disseram que não dá prejuízo.

Conclusão:
Pelas respostas variadas concluimos que o nível de aspiração do produtor, tanto tecnicamente quanto socialmente era baixo, portanto não haveria outra técnica, a não ser aumentar o nível de necessidade do produtor, criando novos interesses para mudarem de cultura e/ou estimular a eletrificação rural que demandaria maiores necessidades como rádio, liquidificadores, geladeiras, TV, congeladores residenciais, bombas de água, bombas e aparelhos de irrigação, etc., e com isto estimular técnicas mais dispendiosas para aumentar o complexo de necessidades do produtor. Esta última opção foi escolhida pelos engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas, a partir dos anos setenta (1972/3),  da Casa de Agricultura do governo do Estado e foram auxiliado pelo SEER (Serviço Especial de Eletrificação Rural) de São Paulo. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário